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No próximo dia 24 de Fevereiro (sábado), pelas 15 horas, irá decorrer um encontro nacional de mandatários(as) e apoiantes do Em Movimento Pelo Sim nas instalações da Junta de Freguesia de Carnide.

O referendo já passou e o SIM ganhou, mas o nosso trabalho não terminou! O objectivo deste encontro é fazer um pequeno balanço do trabalho desenvolvido e ainda a desenvolver até que a regulamentação da ivg, por opção da mulher nas primeiras 10 semanas seja uma realidade para todas.

Um grande passo, alguns alertas....

Foi um grande passo, está claro, ninguém discute.
Mas agora, pondo um pouco de água na fervura, algumas perguntas:
a) Quem tem maioria na AR sem a qual não haverá alteração da Lei? É o PS, não é? O mesmo que a poderia ter já alterado há mais de dois anos, não é?
b) O PS, lembram-se, o partido do Sócrates, de Correia de Campos e de outros do mesmo calibre. A IVG é, antes de mais, um problema de saúde pública. Lembram-se de como este Governo trata da saúde pública?
c) Há quem ande muito satisfeito porque descobriu que Sócrates é diferente de Guterres. Vale mais que, em vez de sobrevalorizar o que é diferente (quanto à questão da beatice, é melhor não confundir forma com conteúdo), que se recorde como foram e são idênticos nas políticas sociais e económicas, na forma implacável como foram e vão ao bolso dos portugueses, na obstinação com que se aliam e integram nas políticas de direita. As que estão em linha recta entre as principais causas do recurso ao aborto.
d) Os jornais do costume fazem coro a aplaudir Sócrates e o BE, que convocaram o desnecessário referendo de dia 11.
Para além da vitória do SIM, qual o balanço prático do referendo? Para as mulheres e para a sociedade portuguesa, um muito importante passo, que não vai ser fácil consolidar, mas que também será mais difícil de fazer recuar. Para o PS, um oportuno branqueamento e desviar de atenção do que o seu péssimo Governo vai fazendo, e já vai reaparecendo a toda a força, nomeadamente com os novos passos na "reforma do Estado". Para o BE, o recrudescimento dos favores mediáticos e do tempo de antena, sem os quais tende para a irrelevância. Para o inquilino de Belém, para as forças defensoras do não, um espaço de pressão que não é de subestimar. E que muito pior teria sido se não tivesse havido a intervenção determinante de uma força política que, discordando do recurso a este referendo, nele se empenhou como nenhuma outra, com tal vigor e empenho colectivo que nas suas zonas de maior influência as votações do SIM alcançaram percentagens esmagadoras. Sabem que força é? Os jornais não sabem....

SIM

Referendo terminado. Todas as freguesias apuradas (link para o Stape). Ganhou o Sim!
Há nove anos, um acordo partidário entre Marcelo Rebelo de Sousa (PSD) e António Guterres (PS), adiou a decisão política para a qual hoje, o povo português, abriu as portas.
Em breve, as mulheres portuguesas, poderão interromper voluntariamente a sua gravidez, até às dez semanas, num estabelecimento de saúde legalmente autorizado.

Breves notas

Nota 1. A elevada abstenção verificada e o carácter não vinculativo do referendo, mostram que teve grande efeito junto do eleitorado, a estratégia vergonhosa e repleta de falsidade, usada pelos movimentos do «Não» particularmente nas últimas duas semanas. E atendendo à forma como o «Não» se comportou neste referendo, manteve-se depois do resultado a negativa coerência, ou seja, não sabendo perder, insistindo nos falsos triunfalismos e persistindo nas "máscaras" e na confusão! Exige-se um "lavar de face", a bem do debate democrático, que se vai seguir em sede própria e com objectivos legais claros e não fantasiosos.

Nota 2. Entre os que votaram, a vitória do «Sim» foi inequívoca e mostra que a escolha dos portugueses é clara. Espera-se agora nova luta política e espera-se que mesmo ante o debate na assembleia da república, todos os cidadãos, e não apenas os que foram intervenientes directa ou indirectamente na campanha que termina com este referendo, uma atenção redobrada, e um sentido de exigência sempre presente, para que se cumpra a vontade expressa pela maioria dos que se pronunciaram pelo voto no dia de hoje.

As projecções apontam para uma vitória larga do SIM, embora co uma taxa de abstenção superior aos 50% de eleitores. Consequentemente, o resultado não é vinculativo, e desde logo vêm vozes argumentar que aprovar uma alteração legal poderia constituir uma inconstitucionalidade. Não sendo o resultado vínculativo, a resposta popular foi clara. O resultado poderá não víncular o legislativo, mas este (não estando vínculado a qualquer opção em particular) pode decidir pelas alterações legislativas que entender. O governo e a maioria parlamentar tem não só a legitimidade como o dever de alterar a lei. Mais, já o poderiam ter feito, na ausência de referendo, com a legitimidade conferida pela maioria parlamentar a favor do SIM. Mas o PS e o Bloco de Esquerda insistiram no referendo. Não faltava mais nada que com a legitimidade reforçada após o referendo não se fosse aprovar uma alteração da lei. Sócrates já confirmou a intenção de alterar a lei, mas suspeito que ainda se vão ouvir estas vozinhas. Agora vem aí o debate sobre a regulamentação da nova lei, incluindo se o estado vai garantir a realização da IVG no Sistema Nacional de Saúde.

Quem não quer que as mulheres sejam presas, só tem uma opção:



Imagem retirada do Sim no Referendo

Campanha desonesta

O Em Movimento Pelo Sim entregou, no passado dia 6, um pacote de queixas à Comissão Nacional de Eleições (CNE) incluindo ministros de culto, atropelando a lei, fazerem propaganda nas missas; a inserção no jornal "Público" de publicidade comercial da plataforma Não Obrigada [CNE já instaurou procedimento contra-ordenacional]; e a marcação de iniciativas para o dia de reflexão, como "a vigília de oração pela vida" na paróquia de Alhandra. É de esperar que algumas missas, no próprio dia de consulta, sejam aproveitadas para efeitos de propaganda.

Há que estar atento também à presença de símbolos nos locais de voto. A Associação Cívica República e Laicidade (R&L) levantou, oportunamente, junto da CNE, a questão da eventual existência de símbolos religiosos em instalações (escolas, autarquias, salões paroquiais, etc.) onde serão instaladas assembleias de voto para aquela consulta popular.

A CNE deliberou recomendar às câmaras municipais e juntas de freguesia que não coloquem mesas de voto em locais onde existam outros símbolos para além daqueles ligados à República. Mas podemos esperar que tal não venha a ser cumprido em alguns locais de voto, pelo que R&L disponibilizou um dos interessados um modelo de documento de participação dos factos considerados irregulares, que poderá ser apresentado aos presidentes das mesas de voto que se considere estarem em situação irregular, durante o período em que esteja a decorrer o próprio acto do sufrágio.

A pulhice no último dia de campanha

A campanha do Não preparou este dia como o dia da pulhice.
À última hora, a quatro horas do final da campanha, aparecem três constitucionalistas a dizer que poderá haver uma despenalização da Lei, mesmo que o Não vença o referendo.
Ou seja, num último esforço, pretendem baralhar e confundir o voto dos portugueses. Os ditos constitucionalistas, sabem que tal como em 1998, a vitória do Não significa que nada mudará durante os próximos anos.
Por isso a questão é simples: quem é a favor da despenalização vota SIM! Quem defende que as mulheres sejam julgadas e presas vota Não.
Não há que confundir.

Quanto mais falam...

Vitor Dias, "Público" 09.02.07

Como já foi notado, as principais forças, movimentos e personalidades defensoras do «não» no referendo de domingo decidiram arrancar convergentemente no ínicio da última semana de campanha não apenas insistindo em que seriam firmes opositores da penalização das mulheres que abortam mas também pondo a correr a ideia desavergonhada e mentirosa de que seria a vitória do «não» que permitiria que, a seguir, a despenalização se verificasse.
Foi neste quadro que subiram à boca de cena coisas tão díspares como as velhas e indecentes propostas de Bagão Félix para que as penas de prisão legalmente aplicáveis às mulheres fossem substituidas por trabalho comunitário (como forma de “expiação” da sua culpa, assim disse o próprio em 2002), como a confissão do crónico Daniel Serrão de que já ficaria satisfeito com um pedido de desculpas público por parte das mulheres que abortam fora do quadro legal, como ainda e sobretudo as múltiplas tentativas de revalorizar quer uma antiga proposta de Freitas do Amaral quer o projecto de lei apresentado por Rosário Carneiro e Teresa Venda, ambas deputadas independentes na bancada do PS.
No que toca a estas duas últimas propostas, e para que não haja confusões sobre alegadas convergências ou pontos de encontro entre os defensores do «sim» e do «não», importa sempre sublinhar que elas partem invariavelmente do sofisma que consiste em reduzir todo o problema em causa à possibilidade de julgamentos e condenações – na verdade, a única coisa que, por via dos telejornais, atrapalha e engasga alguns sectores do «não»- e sempre escamoteando que o problema de fundo é a existência do aborto clandestino – na verdade, algo que, por silencioso e pouco noticiável, jamais lhes tirou o sono ou sobressaltou a consciência.
Feita esta ressalva, e mesmo fazendo a concessão de examinar estas propostas no limitado âmbito em que se colocam, a verdade porém é que nem a antiga proposta de Freitas do Amaral nem o projecto de lei daquelas duas deputadas do PS assegura qualquer efectiva despenalização do aborto até às 10 semanas – prática que continuaria a ser considerada como «crime» no Código Penal, o que, só por si, representaria uma automática manutenção do dramático fenómeno do aborto clandestino.
Na medida em que já passaram três anos sobre a apresentação da proposta de Freitas do Amaral (artigo na Visão de 12-2-2004), importa relembrar que ela consistia fundamentalmente em aditar uma nova alínea ao artº 142º do Código Penal onde se consagraria que “a interrupção voluntária da gravidez, praticada a pedido da mulher grávida (...) e até às 12 semanas de gravidez , presumir-se-á ocorrida em estado de necessidade desculpante, com dispensa de pena, salvo se o Ministério Público apresentar prova concludente em contrário”.
Face a esta aventada nova alínea, basta saber ler e pensar um pouco, não sendo necessário ser catedrático de direito nem sequer licenciado em tal área, para se concluir que, na melhor das hipóteses e contando com a nem sempre certa sensibilidade dos diversos magistrados envolvidos, ela apenas conduziria à não aplicação de uma pena mantendo entretanto os julgamentos, os processos, os interrogatórios, as investigações e até o andamento inicial das denúncias feitas por ajuste de contas ou vingança, ou seja, todas as fases ou actos processuais que, em casos como o da Maia ou de Aveiro, tanta celeuma, choque e indignação causaram.
Já quanto ao projecto de lei de Rosário Carneiro e Teresa Venda, que nem sequer altera uma vírgula ao Código Penal, adiante-se que, no essencial, vem dispor que, recebida notícia de crime de aborto, “o Ministério Público procede à sua inquirição” (logo da inquirição ninguém se livra!), estabelecendo depois que “não havendo motivo determinante do imediato arquivamento do processo, o Ministério Público ordena obrigatoriamente a suspensão provisória do processo [em regra durando dois anos], mediante a concordância da pessoa inquirida e se o facto tiver ocorrido nas primeiras 10 semanas de gravidez”.
Este projecto prevê - e é essa a sua filosofia essencial – que à inquirida sejam impostos um conjunto de injunções e regras de conduta por parte do juiz de instrução e do Ministério Público podendo estes, para a respectiva vigilância do seu cumprimento, recorrer aos “serviços de reinserção social, a órgãos de polícia criminal e às autoridades administrativas”. Por fim, resulta deste projecto que o cumprimento das regras de conduta leva ao arquivamento definitivo do processo e o seu incumprimento à sua continuação. Em declarações à SIC, a deputada Teresa Venda resumiu o projecto de que é co-subscritora afirmando que “a mulher não viria a ser julgada. O processo era aberto, analisadas as circunstâncias, sendo depois suspenso e a mulher encaminhada para a a segurança social para entrar num programa de formação profissional ou de planeamento familiar”.
Podendo acontecer que uma descrição com tanto paleio jurídico acabe por resultar entorpecente, quero sublinhar com toda a clareza que toda esta proposta, tendo muitos dos aspectos já criticados na de Freitas do Amaral, me parece intolerável e chocante por tratar as mulheres que recorrem ao aborto clandestino quase como marginais ou semi-criminosas e como gente desorientada que precisa de ser acompanhada e vigiada durante dois anos ou objecto de medidas de reinserção social. A tal ponto que apetece afirmar que, em termos humanos, é menos humilhante enfrentar e cumprir uma pena de cadeia. Sendo caso para dizer que, quanto mais os defensores do «não» falam, melhor se percebe o mal que pensam.
A este respeito, fica-me a suspeita que há inteligências que são capazes de conceber projectos com este recorte mas, de certeza, não estão a pensar na sua aplicação às suas amigas da classe média que porventura tivessem recorrido ao aborto e, por azar, fossem apanhadas nas malhas policiais ou judiciais por efeito de denúncias ou investigações.
Tudo visto, haverá concerteza excepções, mas através de propostas como esta ficamos a saber que, do lado do «não», podem não faltar estudadas palavras de compaixão e compreensão pelas mulheres que abortam mas que isso é apenas a cortina protectora que esconde uma estrutura mental, uma ideologia e uma cultura que, de facto, as vê como seres levianos, imaturos e irresponsáveis.
E, em nome da indispensável mudança, é também esta concepção que importa derrotar depois de amanhã, votando «sim», sem falta!

Constatação do óbvio

Do último dia de campanha fica a exclamação de mãe da Amélia, que ao ver ontem a campanha do não, exclamou entre dentes: "Se fosse o homem a parir, esta lei já estava mudada e nunca teria sido referendada..."