«Punível até 3 anos de prisão...»
1- Quem, não estando para tanto autorizado, reproduzir, divulgar ou comunicar ao público um programa informático protegido por lei será punido com pena de prisão até três anos ou com pena de multa.

Gente bem intencionada chega a dizer que concorda com tudo o que dizemos, mas que não aceita que se assassinem seres humanos, que o direito à vida se sobrepõe a tudo.
Este argumento não está, claro, livre de contradições, porque, salvo os mais radicais (ou mais consequentes, do seu ponto de vista), em geral estas pessoas até admitem a IVG nos casos contemplados na lei actual, deixando de absolutizar o direito à vida. Defendem-se afirmando que, em casos extremos, é necessário algum equilíbrio.
O argumento da morte de seres humanos, dito de forma mais rasteira ou mais sofisticada, mais ou menos directa, perturba muita gente, religiosa ou não, que, mesmo quando sensível à nossa argumentação, se sente muito desconfortável em votar “Sim” ou, pior, em sequer deixar de votar “Não”. Ainda por cima, quando vem acompanhado de imagens (a que se seguirão, mais que provavelmente, os vídeos nos tempos de antena) de fetos com aparência humana e da referência ao coração que já bate.
A questão é para muitos extremamente melindrosa. Há que perceber que, em grande medida, isso se deve ao humanismo dessas pessoas. Que é, claro, aproveitado, instrumentalizado e manipulado pelos adeptos do “Não”.
O PCP, na sua campanha própria, decidiu não entrar por aí, não descentrar a discussão do que realmente está em causa – o flagelo do aborto clandestino e inseguro e a humilhação, perseguição, julgamento, condenação e até eventual prisão das mulheres que abortaram. Será a atitude mais responsável para um partido político.
Mas preocupa-me, e muito, que o poderosíssimo e extraordinariamente eficaz – porque efectivamente perturbador – argumento do “Não” esteja a ficar sem resposta.
Quem participa nas discussões sabe que esta é a razão principal que leva a votar “Não”.
Os argumentos, falsos e intelectualmente desonestos, da obrigatoriedade de abortar, dos custos para o sistema nacional de saúde, da lista de espera das oftalmologias, etc., podem ser eficazes, mas são, e estão a ser, facilmente rebatíveis.
Só o argumento mais importante de todos, aquele que mais perturba, fica sem resposta, incólume, como se ninguém o pusesse em causa ou, pior ainda, todos o aceitassem. Daí uma tendência nítida para a sua centralidade e, às vezes, até exclusividade na argumentação do “Não”. Continuo muito confiante na vitória do “Sim”, mas acho que o maior risco e o maior contributo para a votação do “Não” vem daqui.
Hoje lamento que não tenhamos formado mais um movimento – qualquer coisa como “Cientistas pelo Sim” – que, com a sua dinâmica e especificidade próprias, interviesse contribuindo para o esclarecimento desta questão.
Com clareza, com seriedade, com responsabilidade, mas também com autoridade científica e credibilidade. Uma intervenção que não afrontaria sentimentos, crenças e práticas religiosas e que, numa linguagem rigorosa, mas simples, acessível e popular, fosse capaz de explicar o seguinte.
Considera-se que uma pessoa morreu quando o cérebro deixa de ter actividade eléctrica. Chama-se a isto morte cerebral. O corpo até pode estar “vivo”, com o coração a bater e as funções vitais sustentadas artificialmente, mas considera-se que já não há vida humana, não restando outra coisa senão desligar a máquina e proceder ao funeral.
Ora os embriões e os fetos, nas primeiras semanas, nomeadamente às 10, não têm cérebro constituído, não podendo, cientificamente, falar-se de vida humana.
Repare-se no absurdo: num hospital, todos concordam que num corpo com o coração a bater, mas cerebralmente morto, a vida humana acabou. Como se pode então considerar que já começou num “corpo” (de forma humana aproximada) sem cérebro?
No feto, sem cérebro formado, o próprio coração só bate porque, à semelhança do corpo cerebralmente morto sustentado pela máquina no hospital, está ligado à “máquina” que é a grávida que o transporta.
Respeita-se a diversidade de opiniões filosóficas e religiosas sobre estes assuntos. Compreende-se a emoção com que uma mulher ou um casal recebe a ecografia do futuro filho, mas reconheça-se que entre um óvulo fertilizado e um recém-nascido decorre um longo período, e que, mesmo para os que defendem que a vida humana começa com a fertilização do óvulo, ninguém pode deixar de sentir que há uma enorme diferença entre provocar o aborto de um feto sem sistema nervoso central e cérebro e o assassinato de um bebé.
A prova é que ninguém, à excepção de alguns extremistas, tem coragem de chamar assassinas às mulheres que abortaram (ou que se limitaram a tomar uma pílula do dia seguinte) ou, como se imporia, se não se sentisse a diferença, a denunciá-las à polícia.
É também explorando esta diferença sentida por todos, a par da explicação simples e popular das questões científicas envolvidas, que se contribuiria para tranquilizar consciências, quem sabe aliviar amarguras e culpabilizações, e, sobretudo, desbloquear adesões a um “Sim” inequivocamente vitorioso.
Visto que um movimento deste tipo, com uma intervenção altamente esclarecedora, pedagógica e credível não se constituiu, um subconjunto de médicos e cientistas do “Em movimento pelo SIM”, sem colidir com a orientação geral da campanha, mas complementando-a, não poderia intervir neste sentido?
Nada seria mais urgente e necessário. »
Maria Leonor Fernandes
"Every sperm is sacred, every sperm is great, If a sperm is wasted, God gets quite irate."Entre 1996 e 2002, cerca de nove mil mulheres portuguesas interromperam a gravidez em clínicas espanholas. Muitas outras, sem capacidade económica para tal, foram obrigadas a recorrer a estabelecimentos clandestinos em Portugal, muitas vezes com risco para a própria vida e sujeitas à perseguição judicial. É esta realidade que urge mudar. E só votando SIM no dia 11 de Fevereiro o podemos fazer. É preciso assegurar a IVG porque se trata de uma questão de justiça e de respeito pela dignidade das mulheres e pelo seu direito de opção, atendendo às condições económicas, sociais, familiares ou às circunstâncias em que ocorreu a concepção. Para muitas mulheres trabalhadoras a gravidez, por vezes, significa o despedimento ou a não renovação do contrato. Sem condições de assegurar a independência económica, sem acesso a infra-estruturas sociais de apoio à criança e à família, sem rendimentos familiares suficientes para criar e educar os seus filhos, as mulheres devem poder evocar razões desta natureza para interromper uma gravidez indesejada. O Estado tem o dever de garantir, através do SNS, as condições de segurança às mulheres que decidirem recorrer a uma IVG e promover em simultâneo politicas adequadas de educação sexual e de planeamento familiar. A saúde é um direito que a Constituição reconhece a todos os cidadãos e as mulheres que recorrem à IVG não podem ser discriminadas nos cuidados de saúde. O aborto é um problema de saúde pública. Afirma-o há muito, a Organização Mundial de Saúde (já em 1967 a Assembleia da Organização, através da Resolução WHA 20.41 se pronunciou nesse sentido). Afirmam-no os especialistas nesta matéria, nomeadamente a revista The Lancet num relatório divulgado em 2006, no qual se refere o aborto clandestino como uma pandemia: “Ending the silent pandemic of unsafe abortion is an urgent public-health and human-rights imperative. As with other more visible global-health issues, this scourge threatens women throughout the developing world. Every year, about 19–20 million abortions are done by individuals without the requisite skills, or in environments below minimum medical standards, or both. Nearly all unsafe abortions (97%) are in developing countries. An estimated 68.000 women die as a result, and millions more have complications, many permanent. Important causes of death include haemorrhage, infection, and poisoning…” Não obstante este dado incontestável, os movimentos anti-femininos do “não” contestam este dado científico, porque para eles só haverá problema de saúde pública quando se trate de doenças contagiosas. Esta é uma concepção antiquada de saúde pública que já não é usada por ninguém… a não ser por aqueles que consideram criminosas as mulheres que abortam. Sempre se tratará de um problema de saúde pública enquanto a dimensão do fenómeno, doença ou mortes, determine a intervenção dos poderes públicos para debelar as causas desses fenómenos. Sublinhe-se que Portugal apresenta uma das mais elevadas taxas de gravidez na adolescência, estimando-se que uma em cada 200 jovens, entre os 15 e os 19 anos, já tenha abortado. Segundo um estudo publicado na Revista Portuguesa de saúde Pública relativamente às estimativas de abortos clandestinos de 1993 a 1997, Portugal apresenta nesse período as mais elevadas taxas da Europa. Por cada mil mulheres em idade fértil (dos 15 aos 44 anos), no nosso país realizaram-se 38,61 abortos, enquanto na Europa a taxa foi de 28. Tendo em conta o número de abortos por 100 nados vivos, em Portugal registaram-se 78,15 abortos clandestinos, enquanto na Europa, em 1993, o número foi de 19,88. Como resolver este problema de saúde pública? Não há outro caminho senão o despenalizar a IVG no primeiro trimestre. Este é um problema de política criminal. Se a lei não é obedecida, pois não corresponde à consciência comunitária, se ela não defende o embrião nem o feto, se é a lei que cria um problema de saúde pública, então há que alterá-la, já que é uma lei meramente simbólica, que não cumpre as exigências do Direito penal moderno. “A Organização Mundial de Saúde defende que: “Os governos têm de avaliar o impacto dos abortos inseguros, reduzir a necessidade de abortar e proporcionar serviços de planeamento familiar alargados e de qualidade, deverão enquadrar as leis e políticas sobre o aborto tendo por base um compromisso com a saúde das mulheres e com o seu bem-estar e não com base nos códigos criminais e em medidas punitivas. (...) As mulheres que desejam por termo à gravidez deverão ter um pronto acesso a informação fidedigna, aconselhamento não-directivo e em paralelo, devem ser prestados serviços para a prevenção de uma gravidez indesejada assim como a resolução e reposta face a possíveis complicações” (a partir de: Unsafe abortion: Global and regional estimates incidence of a mortality due to unsafe abortion with a listing of available country data – Third edition, 1997 – Ref. WHO/RHT/MSM/97.16)”
Lançamento do livro "Sim! Despenalizar o aborto. Proteger a maternidade e paternidade.Garantir o planeamento familiar e a educação sexual." das Edições «Avante!».Qual será a verdadeira preocupação dos senhores do “Não Obrigado” quando colocam em Outdoors a seguinte questão: “Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto?”
Será que preferem financiar o sistema prisional?
Será que ficam mais descansados em contribuir para os hospitais receberem as mulheres vítimas de abortos feitos em condições de clandestinidade (cujas despesas, a todos os títulos, superam as que seriam feitas se a IVG fosse despenalizada)?
Ou será que, na realidade, o que vai para dentro dos seus bolsos preocupa-os mais do que o que pode sair de dentro da barriga das mulheres? Se lhes custa tanto garantir o direito à saúde, à maternidade desejada, à dignidade, como podem estar disponíveis para, com os seus impostos, garantirem a infância feliz, a educação, o lazer, a alimentação, a habitação e a saúde das crianças? Não terão feito as contas?
Dar-se-á o caso de se estarem nas tintas para a vida das mulheres e das crianças desde que não paguem as contas?
… Triste história esta, a do capitalismo, em que os poderosos olham para os outros homens como mercadoria ao sabor da oferta e da procura. A miséria não lhes chega. Tem de ser muita miséria. Para haver miséria tem de haver gente. E quanto maior for a miséria mais barato fica o preço da gente.
Dizem às mulheres que o fruto na sua barriga não é seu. Sabem o que estão a dizer: não é delas, é deles.
Mas eles não quererão saber desse fruto até que as escravas mulheres se tenham consumido em maternidade, até que o fruto seja gente pronta a entrar no santificado mercado.
O sistema jurídico ocidental está estruturado com base em dois princípios fundamentais: igualdade e liberdade. Estes princípios implicam o direito a decidir e o direito à autonomia e são imprescindíveis no exercício pleno e efectivo da cidadania. A partir da segunda metade do século XX desenvolveram-se amplamente os direitos humanos, constituindo-se como universais, intransmissíveis, independentes e inalienáveis. Isto significa o reconhecimento explícito de que todos os seres humanos têm direito à vida em primeiro lugar. A comunidade internacional reconheceu não só a importância do carácter de progressividade, interdependência e internacionalização dos direitos humanos, mas também, e para além disso, a especificidade dos direitos das mulheres.
Tendo em conta o pressuposto anterior, significa que as mulheres no seu direito de ser humano e cidadãs, têm soberania sobre si próprias e não estão obrigadas a transferir o seu direito à vida em nenhuma circunstância, seja por coação religiosa ou de outra índole. Quando se pretende outorgar primazia ao óvulo fecundado, ao embrião ou ao feto, está-se a eliminar ou a negar os direitos das mulheres grávidas, contrariando o axioma jurídico de ”primeiro em tempo, primeiro em direito”. É pior ainda quando o fundamentalismo religioso coloca às mulheres e à sociedade o dilema de escolher entre a própria vida e óvulos fecundados, embriões e fetos, aos quais pretendem outorgar qualidade de ser humano e equiparar em direitos às pessoas já nascidas. A igreja eleva os direitos dos “não nados” de forma hipócrita e os movimentos do Não fazem disso uma bandeira. Mas a verdade é que um embrião, um feto, não pode ser considerado um ser humano, na medida em que não possui quaisquer direitos jurídicos. Porque o feto não tem consciência não pode ser considerado um ser vivo nas primeiras semanas da gravidez. Por vezes, é preferível um aborto a uma vida miserável para os pais e para o próprio filho. Porque dar em adopção nem sempre é uma alternativa. Porque os anticonceptivos falham. Porque o casal, e a mulher em particular, devem poder escolher e porque é um problema que só a eles diz respeito, e não ao papa ou aos bispos.
Acresce o facto de que as mulheres como cidadãs, somos sujeitos autónomos, o que deve obrigar o Estado a reconhecer a nossa capacidade de decidir e controlar a vida, assim como o direito a defender os nossos interesses. O direito ao nosso corpo é inalienável, integral e indivisível dos direitos humanos universais. O direito à própria vida é inalienável, inegociável e intransferível. É imoral e inaceitável qualquer condicionamento à vida e aos direitos das mulheres sobre o seu corpo por razões religiosas, ideológicas, morais, políticas, económicas ou de estado.
A despenalização do aborto é um assunto de democracia e de cidadania, porque compete ao direito de autodeterminação e autonomia das pessoas. É um assunto de justiça social porque afecta especialmente uma parte das mulheres, as mulheres pobres que são a maioria, uma vez que as mulheres com recursos têm acesso a um aborto seguro. O discurso autoritário e absolutista dos líderes religiosos pretende abolir os direitos das mulheres em nome de uma “tradição”, de uma “cultura” e dos “valores cristãos”. Difamam, manipulam e mentem, alegando defenderem os direitos humanos. Mas um dos pilares do direitos humanos é a “não instrumentalização” do ser humano: o indivíduo deve ser considerado como um fim em si mesmo e não como um meio para alcançar um objectivo. No entanto, a igreja protege a maternidade como se a mulher fosse um “instrumento da vontade divina” à qual deve submeter a sua vida e a sua liberdade.
Do alto da sua posição patriarcal, os líderes da igreja observam as mulheres sobretudo em função das suas capacidades reprodutivas e materiais, e não as consideram como agentes morais e autónomos. A verdade é que a crença religiosa não tem de ser um elemento impeditivo do SIM à Interrupção Voluntária da Gravidez, na medida em que a mulher pode exercer a sua liberdade individual e seguir as suas crenças morais e religiosas.
Por alguma razão a campanha pelo Não crê que a introdução de argumentos e factos científicos sobre o desenvolvimento embrionário dará peso à sua posição. Ao fazê-lo coloca o foco da discussão no feto, e não sobre a mulher gravida, e apela ao princípio generalizado e descontextualizado da defesa da vida. Ausente fica a questão a referendo (a despenalização), e das implicações da criminalização sobre a saúde das mulheres.Com apelo ao coração, faz-se a equivalência entre batimento cardiaco e presença de vida humana, já semelhante ao adulto(!), de uma pessoa. Claro que o feto é uma forma de vida humana, mas não é nada evidente que seja um ser vivo independente ou que se trate de uma pessoa no sentido em que o usamos quando nos referimos aos que andam por aí sem cordão umbilical. É evidente que um embrião de quatro células não é uma pessoa, mas quando começa essa massa de células a ter características que indentificamos como as da pessoa humana? A Ciência poderá descrever-nos com detalhe o desenvolvimento embrionário, mas não nos pode dar a resposta a uma pergunta que não é do seu foro.
- O progresso e a evolução da ciência peritem hoje um conhecimento e acompanhamento do desenvolvimento do bebé no seio materno acessível a todos.
- Na ciência moderna o feto não é um ente oculto, mas um ser humano conhecido e directamente observável. Avanços recentes na cardiologia fetal mostram que o desenvolvimento do coração ocorre entre as 3 e as 6 semanas na gestação e que por volta do 20º dia o coração já bate. Às 10 semanas o coração do bebé assemelha-se muito ao coração adulto e a função circulatória está completamente estabelecida.
- Às 10 semanas o bebé pesa 14 gramas, mede 6 centímetros, tem olhos, nariz, lábios, dedos, as mesmas impressões digitais que terá durante toda a sua vida, abre e fecha os olhos, tem sensibilidade e reação ao toque, já chucha o dedo e tem um coração que bateu 174 vezes durante a leitura deste folheto.
O MDM – Movimento Democrático de Mulheres decidiu participar na campanha do referendo (11 de Fevereiro de 07), sobre a despenalização da IVG realizando várias iniciativas próprias, entre as quais a realização de um grande encontro de mulheres pelo SIM.O encontro será em Lisboa, no próximo dia 13 de Janeiro, entre as 14h30 e 17h30, (em local ainda a definir).
O direito a escolher é apenas um dos aspectos de um tema muito mais amplo dos Direitos Reprodutivos, ou seja, o direito da mulher poder controlar o seu corpo e a sua vida reprodutiva. Apesar de que a batalha se centra no direito ao aborto, os direitos reprodutivos, são muito mais do que terminar uma gravidez não desejada. Implicam também o direito de poder escolher, em consequência, o direito a decidir quando devem ou não ter filhos.
Partindo do pressuposto anterior, a liberdade reprodutiva não pode estar consignada unicamente a uma elite social, implica também o direito ao aborto das mulheres pobres. Embora o aborto seja ilegal, as mulheres de um nível socio-económico superior têm ao seu alcance, e sempre tiveram, o dinheiro e os médicos privados para fazerem abortos; ao mesmo tempo que as mulheres com menos recursos enfrentam a decisão de levar até ao fim uma gravidez não desejada, ou arriscar as suas vidas num aborto inseguro e ilegal.
Muitas mulheres pobres e da classe trabalhadora morrem quando o aborto é ilegal ou ficam com problemas de saúde para a toda a vida, porque praticaram um aborto clandestino, sujeitando-se à maior das barbáries muitas das vezes. De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), 78.000 mulheres morrem por ano no mundo, por abortos inseguros. Não havendo estatísticas em Portugal, dadas as naturais cifras negras, relativamente ao aborto clandestino, a verdade é que a Direcção Geral de Saúde revelou, relativamente ao ano de 2002, que uma parcela minúscula do total dos casos de interrupções da gravidez chegaram aos hospitais. Mesmo assim, foram 11.089 os casos. Pelo que normalmente, se estima entre 30.000 e 40.000 o número de abortos clandestinos. A verdade é que, nos países onde o aborto foi despenalizado, dando oportunidade às mulheres de abortar sob condições médicas, não só as mortes diminuíram ou desapareceram por completo, como também o número de abortos se mostrou reduzido, em virtude de uma maior abertura sobre planeamento familiar e sexualidade.
As organizações anti aborto escudam-se por detrás de argumentos que, embora façam da moral uma bandeira, não são nem moralmente superiores nem representam nada que espelhe a maioria da população. Representam sim a maioria extremamente bem financiada, com “amigos” em lugares de poder. Aparentemente, sustentam a sua oposição ao aborto com base em argumentos piedosos, apoiados na “santidade da vida” e na “santidade do matrimónio”. Mas tudo não passa de hipocrisia. Trata-se apenas de uma cruzada política, não de moral. A moralidade é uma questão pessoal. Aqueles que se opõem ao aborto deveriam ser capazes de ouvir a sua própria consciência e, ao mesmo tempo, permitir que todos os demais a ouvissem também.
Ninguém em qualquer dos movimentos pelo SIM sugeriu alguma vez que, qualquer pessoa que se oponha ao aborto deva ser forçada a praticá-lo. No entanto, o objectivo da “cruzada anti aborto” é impor, pela lei, ou pela omissão da lei, um conjunto de valores morais extremamente conservadores, ao resto da população.
O próprio slogan “Somos pela vida”, nada mais é do que uma frase hipócrita, com intenção de deturpar o essencial sobre a IVG e o que realmente está em discussão até ao dia 11 de Fevereiro, com o culminar do Referendo. Porque esta frase não é um exclusivo dos movimentos do NÃO, porque esta frase não espelha de forma alguma unicamente a sua posição… porque esta frase também é minha. E, porque defendo a interrupção voluntária da gravidez, porque defendo que a mulher tem o direito de escolher livremente e de decidir sobre o seu corpo, porque defendo que uma criança tem o direito de vir ao mundo de forma desejada, afirmo que EU Sou pela vida. Sem qualquer hipocrisia!
Numa conferência da plataforma "Não obrigada", a 4 de Janeiro, o economista e militante do PSD António Borges fez uso de argumentos financeiros para justificar o Não. Segundo Borges, uma interrupção da gravidez custaria ao Serviço Nacional de Saúde €650 (para um total de 20-30 milhões de euros) e "a cada 2,3 abortos financiados, o Estado estará a adiar ou a não fazer uma cirurgia" (Diário Económico, 5 de Janeiro 2007).
Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?
1. A proibição do aborto mata mulheres
Proibir o aborto não o elimina. Quando as mulheres sentem que ele é absolutamente necessário fazem-no, mesmo em segredo e sem cuidados médicos.
2. O aborto legal protege a saúde da mulher
O aborto legal não protege apenas a vida das mulheres, protege também a sua saúde. Um aborto mal feito pode ter severas consequências, p. ex. a esterilidade da mulher.
3. Uma mulher é mais do que um feto
Argumenta-se que um feto é uma "pessoa", semelhante a nós, com iguais direitos. Nesta questão existe uma tremenda diversidade de opiniões religiosas, filosóficas, científicas e médicas. É uma controvérsia com séculos de existência. Impôr uma lei definindo um feto (um embrião, ou mesmo um ovo) como uma "pessoa", com direitos iguais ou mesmo superiores aos de uma mulher - uma pessoa que pensa, sente e tem consciência - é arrogante e absurdo. Um ser "humano" em potência não passa disso, ainda não existe como tal.
4. Para uma mulher, ser mãe é apenas uma opção
Travaram-se muitas batalhas pela igualdade política e económica das mulheres. Os ganhos obtidos valem de pouco se a escolha reprodutiva é negada. Poder escolher um aborto seguro e legal torna possível muitas opções. De outro modo, um acidente, uma precipitação ou um abuso, podem acabar com a liberdade económica e pessoal de uma mulher.
5. A proibição do aborto é discriminatória
A proibição do aborto é discriminatória em relação às mulheres de baixo nível sócio-económico, que são levadas ao aborto auto-induzido ou clandestino. As que têm posses podem sempre viajar para obter um aborto seguro.
6. A proibição do aborto aumenta o recurso ao aborto
Muitos abortos poderiam ser evitados se as mulheres pudessem discutir abertamente a sua gravidez. Um aborto legal também pode ser o caminho para uma futura contracepção mais eficaz.
7. O aborto ilegal, produz crianças "responsáveis" por outras crianças
A gravidez na adolescência, na situação actual, tem tendência a aumentar. Pode acontecer com a sua filha ou com alguém que lhe é chegado. Eis a questão crítica: deve a falta de conhecimento, a falta de maturidade, ou um descuido momentâneo ser punido com uma gravidez e maternidade forçadas? Ou com um perigoso aborto ilegal? Devemos condenar uma adolescente a uma sentença de desesperança, desemprego e dependência?
8. O primeiro direito da criança é ser desejado
Quando as mulheres são forçadas a levar uma gravidez indesejada até ao fim, o resultado é uma criança indesejada. Todos sabem que elas estão entre os mais trágicos casos sociais, frequentemente abandonadas, não-amadas ou brutalizadas. Quando crescem, estas crianças estão frequentemente em séria desvantagem e, por vezes, em rota de colisão com os outros. Isto não é bom para as crianças, as famílias e a sociedade. Uma criança precisa de amor, de uma família que a queira e se preocupe por ela.
9. A possibilidade de escolha é boa para as famílias
Mesmo quando são tomadas precauções, os acidentes podem acontecer e acontecem. Para algumas famílias isso não é problema. Mas para outras pode ser catastrófico. Uma gravidez indesejada pode aumentar tensões, romper a estabilidade e empurrar as pessoas para baixo do limiar de pobreza.
O aborto não deve ser encarado como método contraceptivo. Produz sofrimento físico e psicológico. Mas a sua proibição produz ainda mais sofrimento. O Planeamento Familiar é a resposta. O aborto deve ser a última solução.