
O melhoramento digital de um cartaz de Cavaco Silva que recentemente coloquei neste blog foi criticado num comentário de Fernando Alves como demonstrando que a candidatura de Jerónimo não é "séria", que se trata de "uma simples anti-candidatura". Ora, este blog não é o blog oficial de Jerónimo, é um blog de apoiantes da sua candidatura, e como tal ilustra quanto muita a sua base de apoio. Mas mesmo se assim não fosse, a crítica política por meio de sátira, comédia e caricatura tem uma larga tradição em Portugal que vai desde Rafael Bordalo Pinheiro, à Revista do Parque Mayer e ao Carnaval de Torres. O uso de humor na crítica política não torna a crítica menos séria e seguramente não tira mérito às verdades que sublinha."Cabe ao povo português avaliar, face às candidaturas em presença para a eleição de 2006, e em particular face à candidatura apoiada pela direita, que candidatos dão garantia de corresponder a esse juramento solene. E convém que esse juízo seja formado não apenas sobre as palavras com que agora se apresentem, mas também sobre o seu percurso e passado políticos, sobre as políticas que empreenderam e apoiaram." Jerónimo de Sousa, Compromisso com o Povo
A meu ver apenas o Jerónimo demonstra comprender isto claramente, referindo-se constantemente à Constituição, e à totalidade do seu espirito, frizando que a democracia postulada na Constituição ter aspectos políticos, económicos, sociais e culturais, e declarando que é esta que exige um "Portugal de liberdade, de justiça social, de progresso e de desenvolvimento, no quadro de um regime de profundo potencial transformador e enraizamento democrático."
Quem quer saber o projecto de um candidato à Presidência da República, leia a Constituição. Quem quiser decidir em quem votar, avalie a capacidade dos candidatos em antes de mais respeitam o texto. Tal exclui à partida candidatos que não se distanciam de apoiantes que lançam ataques contra a Constituição.| Cavaco Silva | Mário Soares | Manuel Alegre | Jerónimo de Sousa | Francisco Louça | |
| Total | 3,700,000 | 2,949,521 | 1,500,000 | 1,100,000 | 546,948 |
| Subvenção Estatal | 1,678,656 | 899,280 | 900,000 | 350,000 | 425,000 |
| Contribuição partidos | 0 | 1,500,000 | 0 | 717,500 | 66,948 |
| Donativos pecuniários | 2,000,000 | 358,550 | 300,000 | 20,000 | 30,000 |
| Anagariação de fundos pecuniários | 0 | 323,741 | 100,000 | 12,500 | 15,000 |
| Donativos em Espécie | 21,344 | 26,500 | 200,000 | 0 | 10,000 |
| Despesas | |||||
| Material de campanha | 402,000 | 1,009,471 | 500,000 | 600,000 | 258,400 |
| Material para oferta | 262,634 | 5,000 | 40,000 | 0 | |
| Acções de campanha | 665,000 | 1,095,695 | 50,000 | 80,000 | 188,058 |
| Publicidade | 1,470,000 | ||||
| Transportes Mercadorias/Pessoal | 3,000 | 32,950 | 10,000 | 140,000 | 15,237 |
| Rendas e Alugueres | 350,000 | 198,897 | 200,000 | 120,000 | 58,453 |
| Combustiveis | 2,000 | 25,200 | 15,000 | 50,000 | 6,247 |
| Seguros | 1,000 | 3,650 | 2,000 | 20,000 | 1,000 |
| Comunicação | 116,500 | 95,343 | 15,000 | 15,000 | 7,800 |
| Honorários | 210,000 | 171,327 | 100,000 | 20,000 | 6,250 |
| outros | 62,500 | 39,506 | 147,000 | 10,000 | 4,000 |


Cavaco Silva vem melhorando o seu desempenho de debate para debate. Com Jerónimo de Sousa esteve descontraído e cilindrou-o.É possível que Aziz tenha estado a ver as obras no Marqués. Eu cá assisti em que as simplificações de Cavaco eram seguidas pelo Jerónimo a desconstruí-las. A título de exemplo, Cavaco insistiu num ponto já feito por Mário Soares: a Concertação Social é um bem. Enquanto processo, a trazer à mesa os vários pareceiros sociais, tal poderá ser verdade. Mas claramente, o resutado da Concertação não é necessáriamente um bem, em particular quando o dito acordo existe entre o patronato, os seus serventuários (o governo) e uma central sindical com reduzida representatividade cuja função histórica tem sido branquear os avanços do patronato (a UGT). Quando a central sindical que representa a larga maioria dos trabalhadores (a CGTP-IN) não assina um acordo, ou ainda mais importante quando o acordo inclui medidas que claramente constituem um assaltos aos direitos dos trabalhadores, não existe um acordo, existe uma imposição. Tal é clarament um mal social.
[Jerónimo] ofereceu-lhe uma soberba oportunidade para enaltecer os feitos do seu governo no domínio social e desenvolver um discurso humanista e moderno, aproveitando pelo caminho para esvaziar as críticas dos restantes candidatos. Cavaco Silva demonstrou de forma clara que o desenvolvimento de politicas sociais depende do desenvolvimento económico.Lembro-me de facto de Cavaco fazer esta afirmação perfeitamente vazia, que apenas com desenvolvimento económico podia haver melhoria das condições sociais. Ora bolas, isto é obvio. Sem criar valor, não há riqueza para distribuir. Mas que dizer de quando há acumulação de riqueza em apenas magras fracções da sociedade. Uma das divisões económicas é COMO induzir o desenvolvimento económico, se melhorando o consumo, aumentando os salários, ou incentivando o investimento, por exemplo flexibilizando o trabalho e aumentando a possibilidade de exploração. Cavaco demonstrou claramente que favorece esta última via.
As sondagens demonstram que Cavaco Silva consegue ir buscar votos ao eleitorado comunista. Com este debate agarrou essa parte que tem apetência para votar nele.Imagino que Assiz entrou aquí no túnel do Marquês e começou a ver coisas imaginárias no escuro. Onde é que vai buscar esta ideia? Suponho que tenha sido à sondagem Aximage/Correio da Manhã de 6 de Dez:
No caso de Cavaco defrontar Soares, apenas 41,6 por cento dos comunistas votaria no antigo Chefe de Estado. Se fosse Alegre a concorrer contra o antigo presidente do PPD/PSD, esse valor atingiria os 67,8 por cento. Não deixa, ainda, de ser curioso que, num duelo Cavaco-Soares, o candidato da Direita recolhia mais votos dos comunistas (48,2 por cento) que o candidato da Esquerda.No mesmo artigo, acrescenta que na primeira volta Cavaco ia buscar 13,8% dos seus votos ao eleitorado da CDU. E também que 14,5% do eleitorado da CDU estava ainda indeciso. A sondagem baseia-se numa amostragem de 480 respostas a entrevistas telefónicas. Destes quantos terão sido da CDU ou comunistas? Não negando que hajam alguns comunistas cujo ódio ao Soares seja superior à rejeição de Cavaco como Presidente, não estejam a contar com o apoio dos comunistas na primeira volta. Os comunistas e os apoiantes da CDU têm um candidato.

Hoje, Mário Soares visitou o mercado da Ajuda. Vi-o na televisão. E no meio da confusão de que se reveste sempre este tipo de visitas, o candidato (já formalizado?) interpelou ou foi interpelado (não me apercebi bem) por uma senhora que lhe disse: “Voto em si, voto… [fez-se um compasso de espera], mas tem de ser com uma metralhadora apontada à cabeça. Se este país está como está é graças a si! Eu não me esqueço do que você fez aos trabalhadores!”.
Incomodado, embora tentasse disfarçar, o chamado “animal político” pergunta: “Então e em quem é que a senhora vai votar?”.
Ela, sem se atrapalhar, responde: “Isso é comigo!”
O que pretendia Soares com a pergunta?
Considerar que as opiniões mais duras são, necessariamente, vindas de apoiantes de outros candidatos? Perante as câmaras de televisão desacreditar uma crítica só porque ela vem de alguém que já escolheu candidato? E desse modo, rotular a vozes do desagrado como vindas de emissários de outros candidatos? Caso contrário, de que lhe serviria a resposta? E onde é que o velho Soares guarda estas críticas? Debaixo do tapete? Na gaveta? No estômago?
Há dias, num debate com Jerónimo, este candidato fundador do PS, dizia de peito inchado que a sua candidatura era perfeitamente independente, que contava com o apoio do seu partido, mas que tinha sido decidida sem ele (já Cavaco tem dito a mesma coisa – os seus respectivos partidos estão de facto muito mal cotados. Só assim se justifica tanta ânsia de afirmação própria). Nem parecia o mesmo Soares que umas semanas antes criticou Cavaco pelo seu querer distanciar-se da imagem do político (como se o político, em ambos os casos, fosse indissociável dos partidos!), ou com o Soares que sugere que o outro candidato militante do PS entregue o cartão. Enfim, é como já tenho ouvido: Soares é muito coerente com a sua incoerência.
Como pode um homem andar, por um lado, a bater-se por ter uma imagem de unificador, de presidente-de-todos-e-para-todos, de homem que confia no seu povo, e depois, à primeira voz crítica, zás: “…em quem é que vai votar?”
Será que Soares não concebe vozes críticas independentes? Ou melhor: será que concebe vozes críticas?
…E depois os comunistas é que eram os tiranos totalitários…

O Manuel Alegre, num almoço em Guimarães apelou aos militantes do partidos de esquerda que escolhessem os valores do 25 de Abril. E como na maioria das sondagens ele está melhor posicionado para derrotar Cavaco Silva na segunda volta, acrescentou, não seria aceitável que ele não passasse à segunda volta devido «ao egoísmo de uma parte da esquerda».
Sendo de louvar que Alegre re-lembre e até reclame os valores de Abril, não esteja ele a pensar que é o único candidato que o tem feito ou tem legitimidade para o fazer.
Mas curiosa é também a afirmação sobre o 'egoismo da esquerda'. Suponho que tal se refere à existência de vários candidatos de esquerda eventualmente conduzirem à eleição de Cavaco na primeira volta. Este equívoco já o tenho ouvido demasiado.
O Cavaco tem o seu eleitorado assegurado. O que poderá decidir a existência de uma segunda volta é a mobilização do voto de esquerda. Quanto mais votos forem assegurados contra Cavaco, menor será a sua maioria. Isto é matemático. Ora, não seria com um único candidato do PS na primeira volta, fosse ele Soares ou Alegre, que se lograria mobilizar a esquerda senso lato. Para tal fazem falta candidatos que tenham como objectivo primoridal a derrota da direita e do Cavaco, e não estejam com preocupações de parecer moderado e agradável para todos. Faz falta quem perca noites de sono ao imaginar a vitória das forças por detrás de Cavaco. Se não se chamar à atenção, recordar, o perigo que representa Cavaco, então podiamos estar certos que não seria o carisma do candidato do PS que iria derrotar Cavaco. O Alegre que se preocupe em como ganhar, caso chegue à segunda volta. Pois se lá chegar, será em parte porque outros candidatos de esquerda, quais lebres no atletismo, ajudaram a que houvesse a segunda volta.


Regressaram ontem 37 militares Portuguêses destacados no Afeganistão. Ainda lá permanecem 157. Entre os candidatos presidenciais, todos manifestaram pesar pela morte do Sargento Pereira, a 18 de Novembro. Mas de entre os candidatos, apenas o Jerónimo se manifestou abertamente contra a integração de Portugal na Força Internacional de Assistência à Segurança (ISAF), comandada pela NATO. (Aliás, seria legítmo perguntar porque esta aliança de segurança está em operações fora do território dos seus membros, quando o Afeganistão não atacou nenhum deles.)Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.O Manuel Alegre limitou-se a afirmar que «as missões das Forças Armadas devem ser feitas no quadro do direito internacional segundo a carta das Nações Unidas e respeitando os princípios consagrados na constituição portuguesa». (Vejam acima e tirem as vossas conclusões.)


“Morre-se de fome no Alentejo. Ainda vota Cavaco?” dizia um mural que esteve durante anos pintado na estação de comboios da Damaia. Via-o todos os dias quando ia para a faculdade. Todas as manhãs e sempre que o comboio parava ali eu olhava a cara das pessoas para ver se reagiam como eu. Mas eram rostos insondáveis. Em silêncio prosseguiam a viagem rumo aos seus postos de trabalho.
Deixaram de votar Cavaco e com as obras na estação o mural também deixou de existir. De tempos a tempos lá se ouvia o homem que nunca-se-enganava-e-raramente-tinha-dúvidas dando professorais opiniões sobre o estado da economia nacional. Mas eram aparições pontuais. A poeira deveria assentar.
A dada altura apareceu à frente de uma onda, de olhos esbugalhados, demasiado assustador para uma época natalícia, e foi candidato, pela primeira vez, à presidência da República. Mas foi muito cedo (1996). Os portugueses ainda não tinham esquecido, entre muitas outras coisas, que durante o cavaquismo morreu gente à fome no Alentejo. A memória dessa política ainda estava muito viva. Mais não fosse, aquela frase ainda estava lá para lembrar.
A poeira finalmente assentou. Pelo menos aquela poeira. Outras se seguiram: a poeira Guterres, a poeira Durão, a poeira Sócrates. O tempo passou e as pessoas, talvez porque estivessem demasiado ocupadas a tossir e a limpar os olhos, esqueceram Cavaco. Sobretudo esqueceram o cavaquismo. Lá diz o velho cliché: “não há nada que o tempo não cure”.
Uma das consequências da acentuada bipolarização PS/PSD, da manipulação e desinformação trabalhadas pela comunicação social dominante é a subversão do sistema eleitoral e, com ela, parte da adulteração da própria democracia. Grande parte portugueses há muito que deixou de usar o seu voto como instrumento de escolha. Passaram, isso sim, a votar ao ostracismo, isto é, votam PS para penalizar PSD, votam PSD para penalizar PS. Em última análise, o serviço que esses “órgãos de informação” prestam ao despotismo capitalista é enorme; semeiam o ódio à política, criam mitos e mentiras, arrasam com a faculdade de análise crítica e conduzem assim muita gente à incapacidade de sonhar, desejar, acreditar e trabalhar um Portugal diferente e melhor. No entanto, esta gente sente na pele o resultado de políticas nefastas e muitas vezes desumanas e sabe, desse modo, identificar o que não quer. Assim, O voto em Guterres foi um voto contra Cavaco. O voto em Durão foi um voto contra Guterres. O voto em Sócrates foi um voto contra Durão e Santana.
Entretanto, e tal como na antiga Grécia, o ostracismo dura dez anos, tempo suficiente, nesta sociedade em que cada vez mais a memória morre nos livros, jornais arquivados e ficheiros perdidos, para que o castigado limpe a sua imagem e volte como Messias. Um Messias que tem sido cantado e ovacionado pelos grandes empresários de Portugal, que passará a mão pela cabeça de Sócrates e zelará pela política de destruição das conquistas e valores do 25 de Abril.
Em 2004, durante o governo de Durão Barroso, no qual a ministra das Finanças, era a odiada Manuela Ferreira Leite, e que é importante lembrar; uma fiel e admiradora de Cavaco Silva, foram divulgados os seguintes números sobre a pobreza em Portugal: 2 milhões de pobres e, desses, 200 mil pessoas a passar fome.
Tenho pensado voltar à Damaia e reescrever na parede da estação: “morre-se de fome no Alentejo. Ainda vota Cavaco?” e acrescentar: “2005 – 200 mil portugueses a passar fome. Vai voltar a votar Cavaco?”
Ontem num jantar com duas centenas de intelectuais, apoiantes da sua candidatura, o Jerónimo mais uma vez distingui-se dos restantes candidatos por fazer referências sistemáticas à Constituição Portuguesa. Sendo a defesa da Constituição um dos principais papeis da Presidência, é relevante que os restantes candidatos não incluam nos seus discursos uma defesa mais acérima desse solene documento. O Jerónimo, ex-deputado da Constituinte, conheçe a Constituição por dentro e por fora, traz no coração o espírito que a criou, e tem plena consciência das forças que têm como objectivo reformula-a uma vez mais, para a descaracterizar e depurar dos valores de Abril. Em particular, sabe que derrotar Cavaco assume importância não apenas para derrotar o candidato da direita, mas por quem ele representa: exactamente os elementos que desejam destruir a Constituição. Que dizer de um candidato que conta entre os seus apoiantes pessoas que combatem o documento que o cargo terá de defender.